Meu Encontro com Lampião e o Diabo
Sentado numa réstia de clareira em meio aquele negrume da noite eu me encontrava vigiando o fogo da fogueira, afiando o facão a medida que a madeira estalava enquanto devorada pelo fogo, num ritmo hipnótico me envolvi de tal forma que não notei o homem que veio a se juntar a mim se aproximando do acampamento, erro que poderia ser mortal acabou sendo relevado pelo destino pois o homem furtivo apenas se sentou perto do fogo, reclamou da noite fria enquanto se aninhava perto das chamas, estava absorto em meus sentidos bestificados diante de tal acontecimento, fora surpreendido afinal, tanto que demorou segundos para perguntar.
- Desculpe viajante mais de onde veio? Porque não lhe vi chegar? - Sem rodeios perguntei e o homem disse.
- Vim de lá - Apontando para a escuridão - Faz de conta que tem luar e que as estrelas não brincam de conversar em voz baixa, vim da trilha que segue por ali na escuridão, escapado da morte que enganei - Completava o homem voltando a se esquentar.
- E como parece a morte? - Perguntei surpreso com o homem que olhava de cima abaixo, não parecia assombração, ficava junto ao fogo, diferente dos fantasmas com quem já falei, sua pele contudo era costurada com amarras estranhas, como que dado ponto por muitos médicos e sobrevivido a muitos cortes.
- A Morte é alta, vive de capa sobre o corpo e carrega uma afiada faca com quem toma nossa alma, a Morte, muito vaidosa como só ela já que é adorada por todos os heróis que existiram foi enganada por mim quando lhe dei uma fita bela de prenda, com palavreado de se conversar com moça bonita lhe amarrei a fita no pescoço e apertei ate que caiu. Então fiz para mim essa pele de seda elástica e sai a correr mundo - respondia, e começava eu a acreditar que era um homem morto a minha frente, alguém que fugiu do sem fim. Medo eu tive embora não me sentisse firme em minha decisão, não sabia se deveria ignorar, continuar a conversa ou tentar enfrentar o morto, poucas vezes eles são confiáveis mais esse não me ergueu ainda a mão de modo que decidi não ser o primeiro a agredir alguém.
- E não tem medo de ser perseguido? - perguntei a assombração com corpo que me respondeu
- Medo não detém meus feitos, e não serei achado cedo e não sem trabalho, aqui nesse lado começa a mata encantada, bem nessa parte, a sombra escondeu as arvores e a lama rouba a força dos passos de todos que andam na noite, sapos beiçudos coaxam enquanto não há movimento, espiando o escuro - analisava a região - mais a frente um fio de agua lambe a lama e arvorezinhas acocoram-se no charco e raízes velhas comem terra.
- Você fala como se já tivesse estado aqui, e de um jeito que eu nunca vi ninguém falar - indagava a figura que me respondeu
- Porque já passei aqui quando vivo, e já depois de morto, sem corpo eu passei por aqui e vi coisas que olhos de carne não veem, que olhos do vento da noite conseguem notar
No avançar da noite o mal assombro apenas fica maior, os sapos param de cantar e o viajante do além sacava uma faca longa e brilhante a qual tinha escondido, faca essa que me arrepiava ao olhar pois ela parecia brilhar a meus olhos me relembrando todas as vezes que quase morri, cada tiro que sobrevivi, cada vez que por pouco não me estirei no chão, apertei com mais força o facão e de fato alguém chegou com dificuldades mais não foi demorado, um homem de bengala e aura terrível, os sons das aguas e das aves, não apenas dos sapos, todos emudeceram enquanto podia ouvir meu coração na garganta e meus dedos apertando o cabo do facão ate os nós esbranquiçarem.
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| A Morte Vestida tão amada pelos Herois |
- Que maldito terreno, desgraçado Virgulino de todos os lugares que ia se esconder veio pra um local com lama? Queria me evitar é? Sabe que não gosto dessa friagem da madrugada - dizia o homem batendo os sapatos sujos num chão firme, a tensão não diminuía, mesmo quando ele falava com voz macia e aprazível eu sentia dentes arranhando meu pescoço.
- Desgraçado é você Cão Torto, sim fui para onde você não gosta de vir, mas se acha que foi por medo seu Diabo, digo que essa faca pode muito bem provar seu sangue podre primeiro - os olhares se voltaram para a faca, eu sabia quem era o segundo visitante, o Diabo sorriu com dentes afiados, sacando uma adaga da bengala ele falou
- Então você pegou a faca da Morte Vestida - Ao que era respondido.
- Isso mesmo Coisa Ruim, o Dente da Caçada, enquanto o sol nascer no céu e enquanto o céu cobrir o mar, nada entre eles e debaixo deles pode com esse fio, mais você quer tentar a sorte? - Dizia o morto desafiadoramente.
Um sorriso monstruoso era dado, o ar esquentava e a fogueira começava a queimar com mais força fazendo a mim e ao morto se afastar do fogo, o Diabo ria com sua dentadura afiada - Mas você é homem de bater comigo Virgulino? Mesmo que usando tal talismã, eu ainda sou eu - Ameaçava o Diabo.
- Ainda que sem essa faca eu não iria deixar essa provocação passar em branco Coisa Ruim. Hoje eu vou ver de que cor são tuas tripas e vai voltar pro inferno sabendo, Lampião não pede arrego nem se acovarda diante de ninguém.
Mesmo que eu tentasse não conseguiria correr, o diabo parecia uma onça esperando a covardia e ele me levaria com um golpe nas costas se eu empreendesse fuga, se fosse para morrer morreria de frente para o perigo, uma briga de facas terrível se desenvolveu, talvez a mais feia das brigas de facas, movimentos largos e arremetidas seguidos de estocadas e recuos de todos os lados, mesmo enfrentando dois o Diabo era rápido, a lamina beijava sua carne e voltava quente e fumegante, sua faca não me fazia sangrar pelo contrario queimava minha carne e roubava minha força.
Cortes nos braços e mãos do trio se multiplicavam, poucos golpes na pele do peito protegido por roupa e couro mais as laminas deslizavam pela bruta e improvisada armadura como se não existissem, corte profundo na barriga do Diabo e ele finalmente cai segurando a escuridão que lhe vazava como se fosse sangue, enquanto lutava para manter as trevas dentro da barriga e eu tremia com dor dos cortes no braço, Lampião se aproximava do inimigo como um carrasco - Cabra com esse seu jeitinho, que não gosta de sujeira e agua, não tem vez aqui no sertão do meu padrinho - ele corta a cabeça do Coisa Ruim que caia ainda sorrindo dizendo - Te vejo do outro lado - E o corpo da aparição se misturava as sombras da noite que restava e nas sombras tendo assistido a luta sem que eu notasse uma bela mulher estava observando, pelas historias que eu tinha ouvido aquela feição era de Maria Bonita que sentada na fogueira pergunta com voz de anjo.
- Porque ligar para vingança? Você tá morto Virgulino, aqueles que te mataram vão morrer em alguns anos também, não é o bastante saber que o mundo é assim, que a lei da terra vem para todos? - Sem olhar para a mulher ele responde.
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| Lampião enfrentando o Diabo |
- Não é o bastante, Maria eu vou me atrasar... Nem que eu rode o mundo e depois dele o inferno todo não vou deixar aqueles miseráveis vivos depois do que fizeram conosco - Ao ouvir isso a mulher mudava de forma para uma figura alta de grande manto florido e com uma mascara que parecia o crânio de um cavalo na escuridão, ela se aproximava e tocava o ombro do cangaceiro.
- Então boa sorte - A morte então perde sua forma com os raios da manha, mas não Lampião, que observava suas mãos, vendo sua pele resistindo a luz e com um sorriso ele guardava a faca na roupa.
- Me desculpe homem, a noite foi ruim para você, não era minha intenção acredite, como posso chama-lo? - Me perguntou ele, ao que respondi.
- Sou Lorenço, fui bandeirante hoje apenas ando por essa terra - E ele diz com um sorriso antes de andar em direção ao amanhecer.
- Vou lembrar de você Lorenço.













