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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Trevas na Terra de Santa Cruz

Curupira

 

A chuva torrencial havia parado fazia pouco tempo, mas as folhas pingavam ainda de modo que parecia que a agua continuava a cair das nuvens

Folhas pingavam e pingavam lentamente sobre os ombros dos caçadores enquanto avançavam mata adentro, empurrando galhos úmidos e raízes grossas escondidas sob a lama escura. O céu completamente coberto pelas copas das árvores, e o resto da luz do dia chegava ao chão em tons doentes de verde e vermelho.

Augusto liderava o grupo com a espingarda apoiada no ombro. Atrás dele vinham João, Nicanor e o mais novo deles, Davi, que tentava esconder o nervosismo mascando fumo sem parar.

— Eu tô dizendo que ouvi aquilo de novo — murmurou Davi.

Ninguém respondeu imediatamente. Ou quase ninguém, a floresta parecia escutar pois vez ou outra folhas se moviam estranhas ou era o medo do mais inexperiente?

Então Joel riu pelo nariz.

— É bicho, moleque. Macaco, talvez.

— Macaco não assovia — Davi falava olhando por traz dos próprios ombros, inquieto, isso afetava os demais que ouviam a afirmação sem demonstrar mais ela ficava pairando sobre a mente dos mais velhos.

Então um assovio atravessou o breu, longo, fino e muito alto.

Augusto parou abrupto e os outros bateram nele, mas todos escutaram dessa vez.

Nada veio depois. Apenas o vento balançando folhas molhadas e o ruído distante de água correndo entre pedras.

— Tem alguém aqui — disse Davi, sussurrando, inquieto e tremendo.

— Tem sim é coureiro tentando assustar vocês — respondeu Augusto, embora sua voz tivesse endurecido um pouco.

Eles continuaram. O breu avançou cobrindo a mata.

Quando encontraram uma clareira estreita para montar acampamento, o céu já era um teto negro sem estrelas. Joel acendeu o lampião enquanto Nicanor preparava o fogo, foi então notaram, nenhum som, pássaros não cantavam, insetos não estavam os perturbando. Nada.

Augusto lentamente levantou os olhos para as árvores.

— Isso não tá certo.

Um estalo veio da escuridão. Todos viram ao mesmo tempo, um vulto se movia entre os troncos, magra e familiar. Homem e não animal.

Baixo como um menino entrando na adolescência mais algo assustava os quatro, como um instinto de perigo de alguém vendo uma cobra a primeira vez, cada um deles queria correr.

Davi ergueu a lanterna, a luz tremia em sua mão.

É que daqui pra frente vai ser só pra traz.

A luz iluminou um rosto de olhos amarelos e profundos, parecia por um segundo um garoto ate ele sorrir com dentes finos como dentes de felino e o cabelo do curumim se acendia como o sol, seus olhos incendiavam demonstrando odio.

Joel disparou para o garoto, o estampido explodiu pela mata e morreu imediatamente, engolido pela escuridão. O alvo não estava mais lá.

Depois disso, veio o assobio novamente.

Mais perto.

Atrás deles.

Nicanor girou rápido apenas para ser perfurado por um galho afiado em chamas, roupa grossa, ossos, músculos, órgãos e pele. Tudo perfurado com a mesma facilidade. Os olhos de Nicanor iam se apagando vendo o peito perfurado pela lança em chamas como que não acreditando no que via enquanto uma risada seguida de um assovio cortava a mata.

Os três ainda vivos gritavam se afastando do corpo de Nicanor que inflamava como uma fogueira e enquanto o cadáver carbonizava Davi rezava baixinho.

Augusto sentiu o frio subir pelas costas. Aquilo estava errado, o fogo se espalhou rápido demais, Nicanor assim como todos, assim como tudo ao redor estava encharcado.

Os galhos sacudiram violentamente em sequência, como se algo enorme estivesse circulando o acampamento em alta velocidade.

Joel apontava a arma para todos os lados.

— Eu não tô vendo porra nenhuma!... Cadê ele?


A escuridão caiu sobre eles como um pano. E naquele breu mais uma lança em chamas corta a escuridão atingindo a perna de Joel que caia gritando de dor enquanto o menino cantava. 


Eu quero mais...

Quero mais...

Sangue teu...

La vai mais um...

 Que morreu...

Que morreu...


Joel desesperado atirava para todos os lados fazendo Davi e Augusto terem que se abaixar para não serem atingidos no meio do pânico do amigo que antes que pudesse ser socorrido era perfurado mais uma vez no pescoço e era silenciado caindo mole e começando a incendiar como Nicanor antes dele.


La vai mais um...

 Que morreu...

Que morreu...


Davi começou a chorar agarrando os próprios joelhos

— Augusto...

Choramingava o garoto mais Augusto estava em alerta tentando achar a luz do cabelo do pequeno monstro que novamente havia sumido entre as arvores, concentrado, sentindo o coração na garganta e na ponta dos dedos que apertava a arma com força. Tão concentrado que demorou a notar que Davi não chorava mais.

Em terror Augusto correu sem direção, tropeçando em raízes, sentindo galhos cortarem seu rosto. Atrás dele, algo o acompanhava sem pressa.. Sempre na mesma distância, a coisa não precisava correr.


Eu quero mais...

Quero mais...

Sangue teu...


Em meio aos tropeços o caçador caiu por um barranco e dele para um rio caudaloso que o levou para longe rápido, antes de ser engolido pela agua ele ainda viu o fogo brilhar uma ultima vez e podia sentir o ódio direcionado a ele.

Augusto o único sobrevivente viveu ate a velhice contando a quem quisesse ouvir sobre porque todos precisam ter medo do Curupira e seu imenso ódio pelos homens.

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